No dia seguinte acordou à hora do costume, mesmo sem o toque do despertador, desligado na noite anterior por já não ser necessário. Afastou maquinalmente os lençóis e saiu da cama, levado pelo antigo hábito de muitos anos. Já estava de pé quando se deu conta que, afinal, não precisava levantar-se tão cedo. Foi à casa de banho e depois ficou parado no meio do corredor, meio esquecido, meio atordoado, sentindo com a palma da mão a aspereza da barba que despontava no queixo. A mulher já tinha saído para o trabalho e a casa estava envolta em penumbra e cheia de um vazio silencioso. Os estores das janelas, quase completamente corridos para baixo, deixavam apenas entrar duas réstias delgadas de luz que desenhavam indefinidas sombras nas paredes. Ainda esteve tentado em voltar para a cama mas acabou por se decidir pelo barbear, tomar um banho e vestir roupa lavada.
Saiu de casa sem pressas, bebeu uma bica no café e foi andando devagarinho, rua abaixo, a olhar os prédios altos, de janelas mudas, junto aos quais passava todos os dias mas para onde raramente levantava os olhos, na pressa quotidiana dos horários apertados. Junto à paragem do autocarro deteve-se um pouco. Quando o laranja chegou, ficou a ver, uma a uma, as pessoas que subiam, mostrando os passes ao motorista ou picando o bilhete com um estalinho sonoro. Entrou a última e Cardoso ainda teve uma hesitação vaga mas, logo a seguir, determinado, entrou também.
Pouco depois deu por ele no Metro, irmanado com aquele grupo compacto de gente que galgava, em passos largos, os longos e sombrios corredores subterrâneos. Os tacões dos sapatos das pessoas batiam no chão, certeiros e ritmados, ecoando nas paredes nuas: toc, toc, toc, toc. De repente irrompeu uma música cheia, redonda e quente, que vibrou nos corredores compridos e abafou o barulho dos tacões. Era o cego do acordeão que tocava a troco de uma esmola.
Cardoso saiu do Metro e subiu as ruas familiares do Bairro Alto. À porta da empresa cumprimentou o Meireles, o recepcionista, e entrou. A rapaziada recebeu-o com vivas entusiasmados. Todos o chamavam. Então, oh Cardoso?!... Uns queriam saber novidades, como se a última vez que se tinham visto tivesse sido há muito tempo e não no dia anterior; outros queriam um palpite para o bilhete da Lotaria. Dois zeros de terminação, nah, não tenho fé nisso... Fica-se com o outro bilhete, um três e um cinco, esse está bem, é um bom número. Ficou decidido, todos puxaram da carteira para a compra da cautela, e o Zé Fernandes, que andava a recolher o dinheiro, estendeu também a mão para Cardoso. «Continuas cá no grupo das apostas, tá?», sentenciou com uma palmada firme no ombro do reformado. Cardoso riu-se com agrado, meteu a mão ao bolso e entregou-lhe o dinheiro.
Nos dias que se seguiram continuou a ir à empresa. Chegava, quase sempre, ao fim da manhã, ia almoçar com a rapaziada e depois deixava-se ficar tarde fora, nas conversas do costume, velhas de muitos anos mas sempre rejuvenescidas por novos pormenores, enquanto as páginas dos jornais, nas mesas de montagem, iam tomando forma. O futebol era a paixão colectiva. E, naquele dia em que anunciaram a transmissão directa, de Itália, da Final da Taça dos Campeões, Cardoso levou de casa a televisão pequenina, a cores, que tinha comprado durante as últimas férias, numa excursão a Ceuta.
Um dia, foi a uma segunda-feira, Cardoso nunca mais o esqueceria, mal empurrou a grande porta envidraçada da empresa, pressentiu difusamente que algo se tinha passado. Alguma coisa drástica e desagradável.
Avançou devagar pela entrada atapetada, procurando com os olhos a figura conhecida de Meireles, o recepcionista. Em lugar dele viu um homem e uma mulher, ambos jovens e fardados de igual, ele com calças azul-escuro e camisa bege, ela de saia azul e blusa igualmente bege. Os olhos caíram-lhe sobre o emblema de letras douradas que ambos ostentavam no peito. E, num relance, ao tomar consciência do significado do reluzente nome escrito no emblema, Cardoso sentiu o coração saltar como se um punho fechado o tivesse socado por baixo: o velho recepcionista Meireles tinha sido substituído por dois jovens funcionários de uma moderna empresa de segurança e vigilância.
Mas já os dois funcionários de azul e bege o olhavam com ar formal e atento, esboçando ténues sorrisos. Queriam saber o que desejava e quem procurava. Cardoso abanou devagar a cabeça. E murmurou baixinho, a garganta e o peito apertados por uma estranha confusão envergonhada.
«Trabalhei aqui nesta empresa mais de quarenta anos. Reformei-me vai para um mês...»
Nada disto devia ter significado ou entendimento para os dois novos funcionários da vigilância e segurança que voltaram, polidamente, a repetir a pergunta: «O que desejava? Quem procurava?»
Cardoso sentiu-se estremecer. Quem e que procurava ele? Talvez ninguém e nada em particular. Procurava a rapaziada toda, alguns deles companheiros diários de muitos anos de trabalho. Procurava o convívio perdido. A ocupação de espírito e corpo que preenchesse aquele vazio abissal e sem horizontes para onde a reforma súbita o atirara.
«Queria falar com o Zé Fernandes, da secção de montagem.» Dissera um nome ao calhas. Mas já o funcionário de azul e bege, muito compenetrado e eficiente, consultava a lista dos trabalhadores da empresa na procura do nome do Zé Fernandes.
«Precisamos de um seu documento para identificação», pediu, sem levantar os olhos.
Cardoso puxou da carteira e estendeu-lhe maquinalmente o Bilhete de Identidade. Logo a seguir entregaram-lhe dois papéis. Um, era um impresso onde constava o nome dele, a hora de entrada - preenchida até ao pormenor, 11 horas e 2 minutos, nada de arredondamentos - e um espaço em branco para a hora de saída.
«Por favor, peça para o sr. José Fernandes assinar e volte a entregá-lo à saída, quando levantar o Bilhete de Identidade.»
Quanto ao outro papel - um rectângulo plastificado preso por uma pequena mola - Cardoso revirou-o entre os dedos e leu, em letras gordas e negras: Visitante.
«É para o senhor pôr ao peito», esclareceu o funcionário da empresa de segurança e vigilância.
Quando chegou à montagem, assaltaram-no com comentários e perguntas:
«Então, viste a flausina mais o carapau de corrida que eles agora puseram à entrada?. Vê lá que ficamos todos parvos com esta novidade! Uma coisa assim, de repente, sem ninguém estar à espera... Isto deve ser mais uma do Engenheirote...»
Cardoso, cheio de maus pressentimentos, queria era saber do Meireles, o recepcionista: O que lhe tinha acontecido? Onde estava?
Os gráficos franziam a testa, os olhos redondos de perplexidade. Ninguém sabia muito bem. Constava que o Meireles tinha ido de férias. Havia quem se lembrasse de o ter ouvido dizer que, por estes dias, queria ir à terra, à matança do porco.
«Se ele foi de férias e não sabe de nada, quando cá chegar e encontrar os dois jeitosos lá na recepção, com a surpresa ainda lhe dá um chilique que nunca mais se endireita», conjecturava-se.
Cardoso tirou da algibeira e mostrou a Zé Fernandes o impresso que o funcionário da vigilância e segurança lhe tinha dado para ser assinado, mais o rectângulozinho plastificado, com uma mola na ponta, que dizia, em letras negras, a palavra “Visitante".
«Então, não penduraste isso aí no casaco?», interrogou-o Zé Fernandes.
Cardoso fitou de frente o antigo colega de profissão.
«Trabalhei cá mais de quarenta anos. Deixei cá metade das horas da minha vida. Ninguém me vai agora obrigar a entrar cá com um cartão pendurado a dizer visitante.»
Os olhos de Cardoso tinham escurecido e a voz soava triste e ressentida.
«Não leves as coisas assim tão a peito. Não se ganha nada com isso...», animou-o Zé Fernandes, pondo-lhe, amigavelmente, uma mão no ombro.
«Um homem tem a sua vaidade!», retorquiu Cardoso, voltando a guardar o rectângulo plastificado na algibeira.
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em janeiro 2, 2004 03:27 PMbeijinhos... beijinhos :)
Afixado por: Vanda Duarte em janeiro 3, 2004 04:10 PM